Uma Vida Sem Limites

     Nasci no dia 07 de agosto de 1978. Tenho uma família maravilhosa que eu amo muito e que também me ama. Quando pequena, além de gostar muito de brincar e me divertir, também aprontava muito. Eu era muito travessa. Coisas de criança.

     Sempre levei uma vida normal e tranqüila. Entrei na escola aos 6 anos. Não era muito fã dos estudos, as vezes passava de ano raspando, mas nunca reprovei nenhum. Sempre pratiquei algum esporte no colégio, e nas férias, estava sempre correndo pra lá e pra cá na rua com os colegas.

     Quando chegou a época da adolescência, as brincadeiras foram ficando para trás. Mais adulta, gostava muito de sair com os amigos para dançar. As diversões agora eram outras. Fiz também vários cursos, entre eles, um de cabeleireiro e manicure. Até pensei em abrir um salão, mas depois desisti. Mesmo assim continuo praticando até hoje, cortando o cabelo de meu pai, minha mãe e meu namorado. Trabalhei também em vários lugares.

     No ano de 2002 comecei a cursar a faculdade de Jornalismo na Unidavi em Rio do Sul. Novos amigos e novos desafios. Sempre que falávamos no tão temido “TCC” (trabalho de conclusão de curso), eu não tinha nem idéia qual seria meu tema, até chegar o dia 05 de julho de 2004.

VENCER EM MEIO A PERDAS

     O dia cinco de Julho de 2004 será sempre uma data inesquecível no meu calendário. Foi quando nasci de novo. Nunca pensei que algo assim pudesse acontecer comigo. Mas aconteceu. Da mesma forma como acontece com outras pessoas e famílias, com menor ou maior grau de fatalidade. Apesar de não ter nenhuma lembrança do ocorrido, o medo de estar em uma estrada agora é quase inevitável. Cada viagem, cada curva, é uma vitória.

     Saio de casa para o serviço todos os dias às 7h30min. Naquele dia, não sei explicar o porque, sai cinco minutos antes. O caminho percorrido também não foi o mesmo de sempre, decidi que ao invés de passar pelo centro da cidade, iria pela BR-470, pois o caminho era mais curto. Sem preocupação alguma, peguei minha moto BIZ e sai de casa com destino ao meu trabalho.

     Um caminhoneiro não observando a placa de sinalização de 60 km/h na chamada curva do “S”, na BR-470 em Rio do Sul, entrou com uma velocidade bem superior a permitida e não conseguiu segurar o caminhão container carregado com frango. Este, por sua vez, tombou por cima de mim, pegando parte da minha perna esquerda e me jogando contra um barranco. Na queda fraturei também a bacia. Foram momentos de muita tensão. Pela gravidade do acidente, é difícil acreditar que eu tenha sobrevivido.

     Não me recordo de nada o que aconteceu no dia. Nem mesmo de ter saído de casa, ou a roupa que estava usando na ocasião. Lembro apenas de ter acordado em uma cama de hospital. Ninguém me contou nada o que havia acontecido, simplesmente eu já sabia de tudo. É uma coisa que até hoje eu não consigo entender.

     Durante uma conversa com a psicóloga Sílvia Lückmann, de Blumenau, ela me explicou que o fato de ter apagado tudo sobre o acidente da minha memória é normal, foi uma forma que o corpo e a mente encontraram para eu não lembrar da dor que passei naquele momento, provavelmente porque foi muito intensa, e o cérebro automaticamente fez um bloqueio para não lembrar de mais nada. Entendi o porquê que, mesmo eu estando acordada no momento (de acordo com testemunhas e os bombeiros), hoje não consigo me recordar de nada. Acredito que seja uma forma de proteção contra certos traumas.

     Passei uma semana no hospital, as visitas foram tantas que meu pai teve que pedir para o pessoal da recepção avisar sobre cada um que chegava. Caso fosse alguém de longe, eles deixavam subir, senão diziam que eu estava dormindo. Foi a maneira que encontraram para que eu pudesse descansar.

     Na sexta-feira, dia 09/07/2004, quatro dias após o ocorrido, ganhei alta do hospital e fui para minha casa. Pelo fato de meu quarto ser um pouco pequeno, passei a dormir na sala. Meus pais conseguiram emprestada uma cama como as de hospital. Facilitou muito para eles na hora de cuidar de mim. A partir deste dia começou uma maratona. Como eu não podia me mexer e nem sentar, devido a bacia estar quebrada, eu fiquei super dependente da minha família. Eles tinham que fazer simplesmente tudo para mim. Na hora do banho, além de meu pai e minha mãe, era preciso pelo menos mais duas pessoas para ajudar. Minha tia e madrinha Sônia saia do seu trabalho e sempre estava disposta a auxiliar no que fosse preciso. Algumas vezes minha amiga Dio, meu namorado Roberto, meu irmão Jaison ou minha cunhada Bruna também se revezavam. A necessidade de quatro pessoas para me dar banho, era devido ao fato de ter que ser rápido por causa do frio. Imaginem, pleno mês de Julho.

     No dia 07 de agosto de 2004, completei 26 anos. Foi um aniversário diferente, mas especial para mim. Além de meus familiares estarem comigo neste dia, meus amigos da faculdade fizeram uma surpresa para mim. Eu estava sentada na cozinha, e quando percebi, eles estavam entrado em minha casa com balões, e com um bolo gigante. Quase todos estavam presentes. Duas de minhas professoras também fizeram parte de tudo isso. Eu não esperava nunca que isso fosse acontecer. Esse aniversário, sem dúvida, vai ficar marcado para sempre em minha memória.

     Bem, após ter passado o período mais crítico das dores, voltei a dormir novamente em meu quarto, isso já na segunda quinzena de agosto. Voltei também para a aula. No início fui algumas vezes de cadeira de rodas, ficava até o intervalo e voltava para casa, pelo fato de não conseguir ainda ficar muito tempo sentada.

     No mês de setembro, tive que passar por uma outra cirurgia, pois o lugar da amputação não estava cicatrizando. Foram mais 24h de hospital e uma semana de cama, deitada novamente. Desta vez senti muita dor na minha perna, pois na época do acidente isso não aconteceu, penso que seja porque a dor da bacia era maior.

     Em novembro, após quatro meses do acidente, dei início ao processo de colocação da prótese. A clínica que eu optei foi a Ortopédica Catarinense, em Blumenau, lugar onde o principal objetivo é reabilitar e reintegrar novamente as pessoas à sociedade.

    
A primeira coisa a fazer quando se inicía o processo de protetização são os exercícios, as massagens e o enfaixamento para fortalecer o coto. Toda semana, meu pai ou meu namorado levava eu e minha mãe para Blumenau, ficávamos por três dias, pois tudo que era feito tinha que ser acompanhado por uma fisioterapeuta. Nós duas ficávamos hospedadas na casa de minha tia. Foi sem dúvida uma maratona.

     Todos lá na clínica foram muito atenciosos comigo. Eu me sentia muito a vontade quando precisava ir para lá. Foi um lugar onde encontrei pessoas iguais a mim. É um lugar onde não existe nenhum tipo de preconceito, a não ser vindo de nós mesmos quando chegamos lá pela primeira vez. Não conseguia entender o porque daquela felicidade toda que aquelas pessoas estavam sentindo, pois elas tinham o mesmo problema de amputação como eu. Após alguns dias, percebi que o preconceito estava dentro de mim, e depois que eu dei meus primeiros passos, me dei conta que eu também estava feliz, mesmo naquela situação, e entendi o porque do sorriso daquelas pessoas quando cheguei lá no primeiro dia.

     No início de dezembro, após um mês do início de todo o processo, foi tirado as medidas de meu coto para fazer o encaixe de minha prótese. Depois de pronto, à expectativa. Como será andar novamente após cinco meses? Os primeiros passos foram muito difíceis. Tudo machucava, tudo incomodava, mas a felicidade de dar os primeiros passos novamente foi compensador. Após o terceiro dia de treinamento eu já estava mais familiarizada com tudo aquilo. No início eu andava entre as barras paralelas, pois o medo de cair era grande. Fiquei emocionada quando pude sair das barras e dar uma volta, com o auxílio das muletas, pela clínica. Fui na recepção onde estavam meus pais. Eles também ficaram muito felizes com aquele momento.

     Minha felicidade foi ainda maior quando meu protético, Agenor, me disse que eu iria poder passar o natal com minha “nova perna”. Para mim foi o máximo.

     Após a passagem de 2004 para 2005, minhas idas à clínica passaram a ser mais escassas. Não tinha mais a necessidade de ir toda a semana para Blumenau. Passei a ir uma vez a cada quinze dias, depois uma vez por mês, e assim foi aumentando o intervalo das minha consultas. Larguei as muletas, e passei a andar com “minhas próprias pernas”. As aulas começaram novamente. Era o último ano da faculdade.

     No mês de novembro de 2005, participei pela primeira vez do Encontro de Amputados Usuários de Prótese Ortopédica, que aconteceu em Florianópolis. No início eu não queria ir, estava com um pouco de receio, arrumei mil e uma desculpas para não participar, tinha também a questão da pós-graduação, pois eu teria uma avaliação justamente naquele final de semana. Mas não teve jeito, a força foi grande para que eu participasse, e além do pessoal da ortopédica, tinha também meu namorado que não deixou eu dizer “não”. Com tudo isso, minha única opção foi aceitar. Mas a insistência não ficou só na participação do encontro, eles me intimaram para que eu também apresentasse o evento, ou seja, que eu fosse mestre de cerimônias. Eu fiquei muito lisonjeada com o convite. Sem dúvida, eu iria ter me arrependido muito se não tivesse participado, pois me diverti e aprendi muito, foi simplesmente mágico e intenso. Encontrei pessoas com os mais diversos tipos de amputação, e aprendi com elas o quanto a vida pode ser bela, mesmo com algumas dificuldades e limitações. Foi uma experiência fantástica para todos, tanto para os amputados, quanto para aqueles que estavam apenas acompanhando, e que também se entregaram de corpo e alma, tornado o encontro ainda mais gostoso, pois mesmo com diferenças, nos tornamos todos iguais, pois a falta de um braço ou uma perna não impediu ninguém de dançar, jogar bola, nadar, correr, lutar capoeira, ou seja, se divertir, e esquecer, nem que fosse por apenas um final de semana, todo o preconceito, que querendo ou não, sofremos diariamente. Ahh, e além de apresentar as palestras, eu também dei uma de repórter, estimulei o ofício pelo qual estudei - jornalismo. Entrevistei algumas pessoas que se mostraram maravilhadas com tudo aquilo, e prometeram voltar no próximo encontro. E podem me esperar, porque eu também vou voltar!!! E além de mim, minha família também falou que quer estar presente, pois eles ficaram fascinados quando viram as imagens do encontro nas fotos e no DVD.

     Em dezembro do mesmo ano, terminei meu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo. Apresentei um vídeo, intitulado “Um Novo Passo”, contando um pouco sobre a história das amputações. Fiz também entrevistas com depoimentos de um protético (Agenor Teixeira de Souza), psicóloga (Silvia Lückmann), médico ortopedista (André Luís Oliveira Silva), e três usuários de prótese (Charles Antônio da Silva, Odinei dos Santos), e dentre os usuários, consegui também uma entrevista com o repórter do programa Globo Rural da Rede Globo, José Hamilton Ribeiro. Ele perdeu parte de sua perna em uma explosão de uma mina na guerra do Vietnã em 1968. Foi um trabalho muito gratificante. Fiquei muito feliz com o resultado. Quem assistir, vai poder conhecer um pouco mais sobre como é a vida de um amputado.

     No dia 18 fevereiro de 2006, foi minha formatura do curso de Jornalismo. Foi um dos dias mais felizes para mim. Sem dúvida foi um momento “único”, onde pude comemorar mais essa conquista perto de pessoas que eu amo muito.

     Hoje trabalho no SENAI de Rio do Sul, estou fazendo pós-graduação, cursos, e vivo minha vida da melhor maneira possível. Não vou negar que existem as limitações e os preconceitos, situações que antes passavam despercebidas por mim, e que hoje fazem parte do meu dia a dia, mas mesmo assim, continuo fazendo tudo o que já fazia antes do acidente.

     Somente depois de situações como essas, é que começamos a dar a verdadeira importância para a vida, principalmente porque hoje, as pessoas pensam mais com a razão do que com o coração. A solidariedade, o lado humano ficam adormecidos, e despertam apenas em situações desagradáveis.

     É uma pena que muitos não tiveram a mesma oportunidade e a mesma sorte que eu tive de estar aqui para poder relatar tudo isso. Sou uma pessoa muito feliz, apesar do que aconteceu, e hoje, só quero saber de aproveitar e curtir muito essa vida maravilhosa que eu ganhei de novo.

 Andresa Lameu

 
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