UMA VIDA MARCADA PELA GUERRA
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O Primeiro Encontro Brasileiro de Amputados, teve na abertura um convidado ilustre e com muita história para contar: o jornalista José Hamilton Ribeiro, repórter e editor, há 25 anos, do Globo Rural, na TV Globo. Aos 70 anos de idade e 50 de profissão, ele falou sobre sua experiência como amputado: teve a parte inferior da perna esquerda dilacerada ao pisar em uma mina vietcongue, perto de Quang Tri, durante a cobertura da Guerra do Vietnã para a revista Realidade, em 1968. A história de Zé Hamilton eletrizou a platéia - mais de 200 pessoas de todo o Brasil que também passaram pelo trauma de ter um membro amputado, e que buscam, através da troca de experiências e do uso de próteses cada vez mais modernas, recuperar a sua qualidade de vida e a auto-estima. Como bom contador de histórias que é, o jornalista falou com emoção do trágico episódio ocorrido há quase 40 anos. Nas mãos, só um pequeno pedaço de papel, para o caso de falhar a memória. |
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- É impossível esquecer aquele dia - disse.
Quando foi cobrir a Guerra do Vietnã, fez um seguro de vida com validade do início de fevereiro até 20 de março. Dia 19, já estava com tudo pronto para voltar ao Brasil, mas o fotógrafo que havia contratado - um japonês chamado Shimamoto - disse que ainda precisava fazer uma foto, de preferência bem dramática, para a capa da revista.
O fotógrafo prometeu que sairiam da zona de conflito antes de expirar o seguro, à meia-noite do dia seguinte. Entendendo o desespero do colega, Zé Hamilton aceitou ficar mais um dia.
Perna foi amputada em um hospital do exército
Os dois repórteres acompanhavam um batalhão de soldados americanos, a 20 quilômetros a sudeste de Quang Tri, perto da zona desmilitarizada, quando Zé Hamilton pisou em uma mina, escondida no solo. - De repente me senti no ar. Quando me dei conta, estava sentado no chão envolto em fumaça. Procurei meu intérprete, um americano de origem mexicana, e não o vi. Pensei que o rapaz tivesse morrido. Só aí senti que minha perna esquerda puxava. Olhei e não havia mais o pé. Só alguns minutos depois começou a doer. Os enfermeiros estavam ocupados com os outros feridos. Finalmente me amarraram a perna acima do joelho com um torniquete. O sangue estancou. José Hamilton foi transportado de helicóptero para o Hospital Cirúrgico de Quang Tri, onde a perna esquerda foi amputada pouco acima do tornozelo. Ele resistiu bem à operação. Seus outros ferimentos eram leves: algumas escoriações na perna direita e no braço esquerdo. O resto do corpo, intacto. Ainda no hospital, recuperando-se da cirurgia de amputação na perna, José Hamilton recebeu a visita do encarregado de negócios do Brasil em Saigon, Rogério Corção. O jornalista disse-lhe que, tão logo pudesse sentar-se na cama, escreveria sua reportagem, que seria ilustrada com fotos de seu próprio acidente, feitas pelo fotógrafo japonês. Shimamoto finalmente conseguiu a foto dramática para a capa, que tanto queria.
Fonte: Diário Catarinense, 26 de novembro de 2006 – edição 7533 – Reportagem Viviane Bevilacqua
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