Minha História - Carolyne Z. Buzzi

    Meu nome é Carolyne Z. Buzzi, tenho 20 anos. Venho através deste depoimento contar um pouco da minha vida, das minhas superações. Eu nasci com a perna direita mais curta, má-formação congênita. Sou gêmea bivitelina, minha irmã nasceu sem nenhuma deficiência. Sou natural de Indaial – SC e na época os recursos disponíveis na saúde eram bem precários. Meus pais foram até Florianópolis procurar por ajuda de especialistas. Tinha uns 3 meses e meus pais estavam observando que meu quadro não apresentava melhora. Através de um amigo da família Sr. Nica Morro de Apiuna fomos encaminhados para Curitiba, no hospital Pequeno Príncipe fui atendida pela equipe de médicos ortopedistas, tinha 9 meses fiz minha primeira cirurgia com o Dr. Luiz Eduardo Munhoz da Rocha e sua equipe, de amputação do pé. Nasci com o pé torto, com apenas três dedos. Decidiu-se amputar pelo fato de melhor adaptação na prótese. A partir daí durante os anos foram feitas diversas cirurgias para correções sempre acompanhadas pelo Dr. Luiz Eduardo, além de médico um grande amigo com quem conto até hoje. Uma cirurgia que eu considero de extrema importância foi aos 9 anos de idade. Meu joelho direito nunca foi nivelado com o esquerdo, fiz um tratamento de alongamento, onde fiquei nove meses com um aparelho que alongou o fêmur em 9 cm. Depois da recuperação isso me proporcionou o uso de uma prótese onde era possível dobrar o joelho.
    Na minha vida a prótese esteve presente desde os meus primeiros passos. Com um ano de idade coloquei minha primeira prótese e com um ano e sete meses já caminhava. Como sempre me tratei em Curitiba minhas próteses também sempre foram feitas lá. O que muitas vezes se tornava inconveniente pois sempre precisava ir de Indaial a Curitiba para fazer trocas, ou acompanhamentos. A tecnologia está sempre em constante mudança. Com os anos as técnicas foram sendo aprimoradas, porém muitas vezes minha família não pode pagar por essa tecnologia. Sofri muito com dores e machucados. Já havia ouvido falar da Ortopédica Catarinense em Blumenau, até entramos em contato com a empresa em busca de orçamentos, porém na época não tínhamos condições de pagar o preço estipulado, voltando assim a Curitiba onde os preços eram mais acessíveis. Nas mudanças de próteses vinha a expectativa de ter algo que não me machucasse. Eu me frustrei muitas vezes. Sempre busquei me igualar aos outros, não deixar que o fato de eu ser “diferente” interferisse nas coisas que eu fazia. 
    Na escola sempre tive o mesmo tratamento que todos. Minha família sempre esteve muito presente e sempre me incentivou. Tenho muito que agradecer, principalmente a minha mãe que sempre foi em busca do melhor para mim, batalhando e lutando contra todos para me ver bem e feliz.  O tempo passou, comecei a trabalhar e fui evoluindo. Há uns três anos atrás precisei de uma meia de proteção que usava na minha antiga prótese, minha mãe foi até a ortopédica catarinense em busca desta meia. Foi nesse momento que a Roseli conversou com ela sobre eu ir lá conhecer a ortopédica e falar com ela. Minha mãe chegou em casa animada, me dizendo para ir lá conhecer a ortopédica e falar com os profissionais. Na hora confesso que fui meio relutante, o ser humano é muito acomodado e tem medo de mudanças. Apesar de não estar muito confiante nesse encontro marquei uma hora e fui conhecer a ortopédica. A conversa foi pesada, no sentido de que me fez enxergar o quanto eu estava sofrendo sem necessidade. Como comentei a dor já fazia parte da minha vida, para mim isso era “normal”. Quando ouvi alguém dizer que a prótese não pode em hipótese nenhuma machucar não acreditei, pensei: “a isso é papo de vendedor, que quer vender!”. No caminho para casa fiquei imaginando se isso era realmente possível. Apesar do choque inicial aos poucos percebi que eu podia ter algo melhor para minha vida e a dor não fazia parte disso. De novo me deparei com uma barreira, o preço elevado das próteses.
    Minha família não tinha condições de pagar. Eu já estava empregada e pensei, bom se for necessário farei um empréstimo e vou pagando aos poucos, afinal isso é um investimento que vai fazer parte de mim. Antes de fazer qualquer empréstimo até tentei algo pelo SUS, cheguei a ir até Florianópolis, mas percebi que através deste sistema não iria ser possível fazer a prótese em Blumenau. Era necessário entrar em uma fila de aproximadamente um ano de espera e talvez a qualidade seria inferior. Após essa tentativa frustrada entrei em contato com a Ortopédica Catarinense e comecei meu tratamento. Primeiro foi algumas seções com a fisioterapeuta para fortalecimento, depois comecei a colocar a nova prótese e a me adaptar com ela. Para mim foi muito tranqüilo essa transação, afinal já uso prótese desde pequena. No começo é possível sentir a diferença, mas é só até o corpo se acostumar, pegar o jeito de caminhar. Depois da fase de adaptação minha vida mudou radicalmente. Eu mancava muito com a prótese anterior e já estava com problemas de coluna por causa disso, com essa troca minhas dores nas costas sumiram, o caminhar melhorou muito e as dores, machucados na perna desapareceram. Meu desempenho físico melhorou muito. Sempre gostei de fazer atividades físicas, já fiz hidroginástica, natação e atualmente faço musculação. Percebi uma melhora considerável na execução dos exercícios e no fortalecimento dos músculos.
    Em alguns momentos da minha vida me vi desmotivada, me sentindo diferente de todos, com raiva da minha situação, imaginando como seria mais fácil se tivesse nascido com minhas pernas perfeitas. Hoje eu vejo que apesar de tudo que passei, a minha condição não me impede de viver igual às outras pessoas. Trabalho a três anos em uma empresa como auxiliar contábil Jr., faço faculdade de Adm/Finanças e sou feliz como sou. Não importa que talvez os outros me vejam com indiferença, eu os enxergo como iguais perante a mim. É difícil expressar tudo que sinto e a forma como vejo as coisas em palavras, mas espero que esse depoimento possa ajudar as pessoas a verem a deficiência com outros olhos, no meu ponto de vista a ausência de uma perna não é uma perda e sim um aprendizado. Tudo que passei durante a minha longa caminhada de idas e vindas de médicos, cirurgias, enfrentar barreiras transformou minha personalidade e faz parte do ser humano que sou hoje. Eu sou responsável por transformar a minha história.

Carolyne Z. Buzzi


 
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